Super indico

A história de Júlia e sua sombra de menino

Você sabe, todo mundo diz que eu pareço mesmo com um menino. As pessoas dizem que as meninas devem fazer o que as meninas fazem, e os meninos devem fazer como os meninos. Não temos o direito de fazer nenhum gesto diferente do que se espera.

Faz “um milhão de anos” que não posto aqui no blog. A vida tem andado complicada, difícil arranjar tempo e disposição para atualizar. Mas esse livro mereceu! julia_sombra Lemos hoje. Lindo demais – história e ilustrações. A pequena Júlia não atende ao “perfil padrão” que se espera de uma menina em nossa sociedade. Diante de suas recusas a se moldar a esse padrão, a mãe e o pai dizem que ela “parece um menino”. De tanto ouvir isso, um dia Júlia acorda e vê que tem uma sombra de menino. Daí em diante, surgem os questionamentos sobre o que é “ser menina” e “ser menino” e se não é possível ser os dois ao mesmo tempo. Assim como no livro “Chega de Rosa”, a protagonista também conhece um menino que sofre preconceito por não se enquadrar nos padrões. Por sinal, a história de um lembra bastante a de outro, mas o “A história de Júlia…” é mais antigo, de 1976, e um pouco mais denso. Percebe-se que o protagonismo da França em termos de literatura infantil que questiona os papéis de gênero não é de hoje. julia_sombra2 Super indico! Autores: Anne Galland e Christian Bruel Ilustradora: Anne Bozellec Editora: Scipione Ano: 2010 Número de páginas: 72

CHEGA DE ROSA!

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Atualmente, a maioria das meninas não vive sem a cor rosa e o mundo encantado das princesas. Nem sempre foi assim. Quando eu era criança, a variedade de roupas infantis era bem menor. Em compensação, não havia a ditadura do rosa para meninas. Hoje, encontra-se uma variedade enorme de modelos, mas a esmagadora maioria das roupas infantis femininas são na cor rosa! E essa “ditadura” cor de rosa alcançou também os brinquedos. A Lego, por exemplo, passou a produzir peças cor de rosa. Que bom, poderíamos dizer. Afinal, por que excluir essa cor (que eu acho bonita) da gama oferecida pelo brinquedo? O detalhe está em que não foram incluídas peças rosas nos conjuntos Lego, mas criada uma nova linha, em que predomina essa cor, destinada ao público feminino. Isto é: menina deve brincar quase exclusivamente com rosa e aos meninos essa cor é proibida. Este é apenas UM dos muitos casos que tenho observado desde que me tornei mãe.

Há também o mundo das princesas, que saiu dos contos de fadas e tomou uma dimensão assustadora. Não vou discorrer sobre o quão nocivo esse “mundo das princesas” pode ser para as meninas, especialmente àquelas que são estimuladas a sonhar em se tornar uma delas. Mas indico uma reportagem da Carta Capital e outra da Revista Crescer que abordam pesquisa realizada pela antropóloga Michele Escoura, da USP, sobre como esse “mundo das princesas” influencia as crianças. E uma nota da GNT sobre o livro “Princess Recovery: A How-To Guide to Raising Strong, Empowered Girls Who Can Create Their Own Happily Ever Afters”, da psicóloga Jannifer L. Hardstein.

Aqui em casa, as princesas nunca fizeram muito sucesso. Já o cor de rosa invadiu o quarto e as vestimentas da Si quando ela era bebê. Uma porque EU gosto, outra porque era difícil achar roupa que não fosse rosa. Mas a Si cresceu, suas preferências foram se desenvolvendo e o rosa não é uma delas. Por isso, quando vi na internet o livro de que trato neste post, logo encomendei! E não me arrependi!

“Chega de Rosa” é um livro de origem francesa, escrito por Nathalie Hense e com maravilhosas ilustrações de Ilya Green. No que tange as questões de gênero e ao debate sobre uma educação menos sexista, a França acaba sendo uma referência. E esse livro é mais um exemplo disso.

A protagonista é uma menina que não gosta de rosa, nem se identifica com as brincadeiras geralmente classificadas como sendo “de meninas”. Isso lhe assegura o rótulo de “arremedo de menino”, dado pela própria mãe. Ao longo da história, a protagonista se depara com meninos que também não se enquadram no padrão socialmente definido para eles. E percebe que isso não os torna “arremedos de menina”.

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No livro, os adultos fazem o papel cerceador e rotulador das preferências das crianças. Ao final, nossa heroína percebe que seus gostos não são defeito, que não há nada de errado em suas preferências e que ela é sim “uma menina perfeita”, mesmo que não se enquadre nos padrões que a sociedade tenta lhe impor.

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Natlhalie Hense escreveu esse livro para sua filha que, quando tinha 7 anos de idade, perguntou a ela: “Eu não gosto do rosa e nem das bonecas. Eu sou uma menina mesmo assim?” (Tradução feita por mim, a partir do blog Le blog de Lila).

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Trata-se de uma história que deveria ser lida por todas as crianças, com certeza contribuiria para a construção de um mundo com menos preconceitos. E que, sem dúvida, tem tudo para ajudar na autoestima daquelas crianças que sofrem algum tipo de discriminação por não se enquadrarem nos estereótipos existentes.

Super indico!

 

Autora: Nathalie Hense Ilustradora: Ilya Green Editora: SM Ano: 2013 Número de páginas: 36

111 POEMAS PARA CRIANÇAS

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Outro dia, ao chegar em casa, me deparei com a seguinte cena: minha mãe e minha filha, cada uma com um livro em mãos, liam poemas uma para a outra. Não preciso dizer que achei lindo demais!!!

Um dos livros era “Poesia fora da estante”, que a Si ganhou da Escola por ocasião do encerramento da Educação Infantil e que eu comentei neste post. O outro era “111 Poemas para Crianças”, de Sérgio Capparelli. Já faz um tempo que esse livro integra a biblioteca aqui de casa. Trata-se de uma obra com versos divertidos, que encantam a criançada, retirados de livros publicados anteriormente pelo autor.

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Comentei diversas vezes aqui no blog que a Escola que a Si frequenta faz um ótimo trabalho de formação de crianças leitoras. Neste trimestre letivo, o eixo central desse trabalho é a poesia. E um dos livros é justamente esse do Sérgio Capparelli! Ela está adorando e o livro, que tinha andado um pouco esquecido, agora é leitura frequente. É o tipo de livro que vale a pena ter na estante, para buscar sempre que bate aquela vontade de ler/ouvir alguma rima gostosa!

Super indico!

 
Autor: Sérgio Capparelli

Ilustradora: Ana Gruszynski

Editora: L&PM

Ano: 2012

Número de páginas: 136

 

OTOLINA E A GATA AMARELA

Capa.

Capa.

Um primor de livro! Acho que isso define bem essa obra de Chris Riddell; ilustrador, cartunista político e escritor britânico. A história, uma “novela policial”, é contada através textos e ilustrações que se completam. Como toda obra policial, o enredo possui um mistério a ser desvendado não apenas pela personagem principal, mas também por suas/seus leitoras/leitores.

As ilustrações do livro são um espetáculo. Além de lindas, são ricas em detalhes divertidos. Impossível não ficar encantada por elas e gastar (ou aproveitar) um bom tempo observando-as. Além do preto e do branco, a única cor que aparece é o vermelho, sempre em algum detalhe.

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O livro faz parte de uma coleção que traz as aventuras de uma menina, Otolina, e seu grande amigo, Sr. Munroe. O Sr. Munroe é… bem, não é possível saber direito “o que” ele é. Veio de um pântano na Noruega, vive com os pais de Otolina desde antes dela nascer e é a sua companhia quando não estão. Estes viajam pelo mundo atrás de artigos para suas fantásticas coleções, como a de “bules com quatro bicos” e não aparecem na história. Só se fazem presente através dos postais enviados pela mãe de Otolina. Otolina herdou dos pais o gosto pelas coleções, como a de sapatos estranhos. Além disso, gosta de elaborar planos inteligentes para resolver mistérios.

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Minha pequena detetive, que anda encantada por esse mundo, se deliciou com esse livro. Já estou me preparando para comprar os outros dois da coleção: “Otolina na escola” e “Otolina no mar”.

Além das ilustrações maravilhosas, o acabamento da capa fazem deste livro realmente um primor, que enfeita o espírito e a estante!

Super indico!

Autor e ilustrador: Chris Riddell

Editora: Galera Record

Ano: 2009

Número de páginas: 176

 

O POTE VAZIO

Capa.

Capa.

Um lindo conto sobre honestidade. A história, escrita pela norte-americana Demi, se passa na China antiga. O velho imperador precisa escolher um sucessor. Ele, assim como os demais habitantes do reino, é um grande apreciador das flores, então decide que serão elas que o ajudarão a realizar a escolha. Distribui sementes para todas as crianças do reino e diz que aquela que provar que fez o melhor possível dentro de um ano será sua sucessora. Todas as crianças do reino participam, inclusive Ping, um menino que tudo que planta floresce maravilhosamente. Mas eis que, desta vez, todas as crianças parecem ter conseguido cultivar lindas flores, menos ele. O prazo termina e o pote em que Ping plantou a semente do imperador está vazio. Muito triste, pensa em como irá se apresentar ao imperador.

Uma das ilustrações.

Uma das ilustrações.

Assim como a história, as ilustrações são lindas e delicadas. Reproduzem o estilo das gravuras existentes nos vasos chineses. O texto não é longo, mas as letras são pequenas e de imprensa (com maiúsculas e minúsculas), não sendo ideal para quem lê há pouco tempo. O que não é um problema, já que trata-se do tipo de livro que vale muito a pena ler para as crianças, desde as mais pequenas até as maiorzinhas. Afinal, não é porque já dominam a leitura que deixam de gostar que lhe contemos histórias! Aqui em casa é um “ritual” que nós adoramos!

Super indico!

Autora e ilustradora: Demi

Editora: Martins Fontes

Ano: 2007

Número de páginas: 36

 

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

Capa.

Capa.

Ontem concluímos a leitura do primeiro livro da saga do menino bruxo. A Si é fascinada por suas aventuras e já assistiu muitas vezes aos filmes. Só não a liberei ainda para ver os três últimos porque os considero muito “pesados” para a sua idade. Dos demais, os três primeiros (mais vistos) os sabe quase “de cor e salteado”. Inclusive reproduz alguns diálogos fielmente, mesmo depois de passar um bom tempo sem ver a cena. Sempre teve memória excepcional para filmes. Era muito divertido ver a reação das pessoas quando aquela coisinha fofa de apenas três anos soltava algo como “Ou pagará com a própria vida”. Tratava-se da reprodução de uma fala da madrasta má da Branca de Neve sendo usada nas ocasiões mais pertinentes, como quando pedia um copo de água. A platéia (adultos presentes) ficava perplexa e a pequena, feliz por ter impressionado!

Voltando ao interesse da Si por Harry Potter, qual não foi a alegria dela ao descobrir exemplares dos livros da saga na biblioteca da unidade em que estuda agora. Logo quis retirar para lermos em casa, mas foi orientada pela escola a não faze-lo. Consideram que o livro não é muito acessível para essa faixa etária. Em reunião com a professora, tive a oportunidade de explicar que tenho o hábito de ler bastante para a Si e que, por mais que sua leitura esteja cada vez melhor, seria eu a ler o livro para ela. Assim sendo, retirada liberada e a pequena pode trazer feliz o livro para casa.

Imagem extraída do blog Um livro, um mundo. Lá você encontra um comentário da história narrada no livro, que acabei não abordando no post. Para acessar, clique aqui.

Imagem extraída do blog “Um livro, um mundo”. Lá você encontra um comentário sobre a história narrada no livro, que acabei não abordando no post. Para acessar, clique aqui.

De fato, não é um livro de fácil leitura para quem está no primeiro ano do ensino fundamental, mesmo que já esteja alfabetizada. Trata-se de um livro denso, com muito texto por página e nenhuma ilustração. Entretanto, a paixão pela história e a memória dos filmes impediram que essa leitura se tornasse enfadonha para a pequena. Acho sempre interessante comparar o livro com o filme. Como a Si tem essa memória privilegiada, isso fica ainda mais fácil. Apesar de essencialmente ser a mesma história e do filme reproduzir certas passagens com uma fidelidade extraordinária, ainda há muitas diferenças entre o livro e o que vemos nas telas. O livro nos permitiu conhecer mais profundamente algumas das personagens, assim como entender melhor algumas partes da história. Fora que nada substituiu o prazer proporcionado pela leitura de um bom livro. Certas passagens e diálogos eram acompanhados de uma breve “interpretação” realizada por minha filha, que mostrava como “enxergava” aquilo que era narrado.

A leitura foi demorada. Quis somente eu ler esse livro para ela, já que achava que mais de um “leitor-contador” prejudicaria a continuidade da história. Isso fez com que algumas vezes a cada semana essa leitura não ocorresse, pois são dias em que chego tarde. Assim foi que essa leitura nos tomou um mês inteiro! Confesso que, apesar de também gostar das histórias criadas pela escritora J. K. Rowling, já não via a hora de concluir. Por mais que a Si continuasse a ler seus gibis e livros menores, estava achando que era tempo demais destinado a apenas uma obra. Mas valeu a pena! Ver que ela conseguiu acompanhar, que lembrava em que momento da história havíamos parado na vez anterior e que, apesar de em algumas passagens mostrar um certo cansaço e desinteresse, logo fazia alguma comentário revelando o quanto de fato estava atenta. Ao encerrarmos hoje, perguntei se gostou, se não achou muito cansativo. E a resposta foi que gostou e que quer retirar o segundo livro! Apesar de ficar feliz ao perceber o quanto gostou da leitura, recomendei que adiasse a do próximo. Expliquei que tem vários outros livros para ler e que pode deixar o próximo do Harry Potter para quando esteja um pouco maior. Quem sabe aí já consegue ler por conta própria? Amo de paixão ler para minha filha, mas por enquanto prefiro livros menores, que, além do mais, possa partilhar a leitura com ela nesse momento tão rico de desenvolvimento e aprimoramento dessa habilidade. Mesmo assim, super indico esse livro, principalmente para adultos/as contadores/as de história muito pacientes e/ou crianças um pouco mais velhas e com “fôlego” de leitura autônoma!

Super indico!

Autora: J. K. Rowling

Editora: Rocco

Ano: 2000

Número de páginas: 224

 

 

 

MATILDA

Conhecemos Matilda, de Roald Dahl (o mesmo autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate) através do filme. Eu, já faz tempo. A Si, há uns dois anos. E ambas nos encantamos pelas aventuras dessa pequena notável que tem uma família de amargar.

O filme.

O filme.

Matilda é uma criança com dons especiais, que nasce no seio de uma família completamente dominada pela ignorância, o egoísmo e a mesquinharia. O pai é um vendedor picareta de automóveis, a mãe é uma jogadora de bingo e o irmão é uma criança cruel e idiotizada pela televisão. Matilda aprende a ler sozinha muito cedo, por volta dos três anos. Logo está frequentando a biblioteca pública, já que em casa poucas são as opções de leitura, e lendo livros bastante complexos. São os livros que lhe permitem fugir daquela realidade tão hostil e se tornam sua companhia constante. Tanto o filme, como o livro em que foi baseado percorrem rapidamente os primeiros anos de Matilda e se detêm no momento de seu ingresso na escola, quando passa a conviver com outras pessoas, algumas tão terríveis ou piores do que as de sua família, e outras bondosas e interessantes. Entre estas está sua professora, que também tem uma história de vida sofrida e se tornará sua grande amiga.

Capa do livro.

Capa do livro.

Como em outras histórias de Roald Dahl, há um olhar crítico acerca dos seres humanos, sejam adultos ou crianças. O livro desmancha a ideia de que todas as mães biológicas e todos os pais biológicos possuem um amor incondicional por seus filhos. E mostra que esse amor pode vir de pessoas sem nenhum vínculo sanguíneo, mas que desenvolvem um profundo e sólido vínculo afetivo.

O livro é classificado como “literatura juvenil”. O número de páginas, a quase inexistência de ilustrações e a densidade do texto justificam isso. Entretanto, esse tipo de classificação não deve ser limitadora de nossas escolhas. Por saber do interesse da Si por essa história, por achar que teria fôlego para acompanhar a leitura e maturidade para entendê-la, a presenteei com esse livro no início do ano passado, quando estava com cinco anos e meio. Li para ela durante aquelas férias. Foram vários dias de leitura, mas que contaram com toda a sua atenção. O fato de já conhecer a história a partir do filme ajudou para que não se “perdesse” no meio do caminho. Além disso, gostou de comparar as diferenças entre o livro e o filme.

Super indico!

Autor: Roald Dahl

Ilustrador: Quentin Blake

Editora: WMF Martins Fontes

Ano: 2010

Número de páginas: 264